sexta-feira, 31 de julho de 2015

Onde é que se cabem os seres confusos?



Loucura, já não cabe em mim, eu queria transbordar de amor,
Esqueci, não me preenchi,
Me pus a me preencher, colocando cor por cor,
Formei então uma galáxia de mim mesma,
Que não transborda fora,
Não, não transborda,
Nem que eu me vire do avesso,
Aliás, me sinto o avesso de tudo,
O avesso das relações,
O avesso do cantar coletivo,
O semelhante do cantar triste de um sabiá qualquer,
Se um dia eu colocar para fora toda essa galáxia de pensamentos,
Será um dia incomum,
Será um dia feliz?
Os segundos do dia,
Todos permeados de interrogações,
Eu nasci e cresci, e cresci, e pensei,
Tampouco sei quem sou,
Tampouco sei o que sou,
Eu vou beber desse céu que já não cabe em mim,
Cada vez mais,
Na esperança de que um dia transborde,
Com minha produção muda,
Que não fala em alto falantes,
E como falaria,
Se tampouco tem voz.
Um aperto forte bate no peito,
Aquele mesmo que pensei,
Fosse amor,
Doeu, dói,
Era dor,
E eu já cansada de me doer,
Misticismo é não caber dentro de si mesmo.
E ao mesmo tempo esse não caber,
Não sabe como jorrar para fora, onde caberia.
Onde é que se cabem os seres confusos?
-Flávia Nascimento

quarta-feira, 29 de julho de 2015





A voz não sai,
Embarga!
Força, força,
Desaba,
É muito fácil para aqueles que se identificam,
Minha fala já se venceu por si mesma,
Não justifica!
Nada justifica nesse mundo, se você não interage.
Só o que não interage, é que sabe,
Da angústia que sente, porque não é por falta de querer,
Sinto que estou doente, por não me identificar mais com nada,
O nada me traduz.
Eu não quero rimas, mas me forço a ver luz,
Não vejo, eu caio,
Toda vez que tento.
Não quero lamentar,
Mas não aguento,
A vida tem se tornado somente lamento.
Um constante aviso de "acesso negado" bem estampado na cara,
A cara de um povo que é só tormento.
Minha terapia é feita de solidão,
No teatro, no circo, no  cinema, na canção.
È pura corrosão
Terapia, significa tratamento de doentes,
Mas parece mais significar um evento para esquecimento momentâneo da dor profunda que se sente.
Todas as palavras parecem sem sentido,
Todas!
Não tenho vontade de falar, pois o que digo, parece incomodar,
E incomoda á mim mesma.
Fim.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Me apaixonarei pela bailarina





Me apaixonarei pela bailarina, que tem seus movimentos leves,
Uma leveza que necessita força,
Os braços se jogam no vento, puxando  como correnteza,
Os pés, têm uma necessidade constante de sair do chão,
Assim como os meus
Me apaixonarei pela bailarina, que tem a consciência da brevidade das coisas,
A bailarina não reprime seus desejos mais profundos, e os jogam em movimentos,
O relógio para ela parou a muito tempo, e ela esqueceu como se conta números,
Se perdeu em fazer poesia com o corpo,
Assim como faço com as letras.
A simetria exigida, lhe testará a cada instante,
Mas será bonito ver, quando ela executar os passos livremente,
Sem a pressão de quem quer que seja,
Me apaixonarei pela bailarina, que solta seu coração sofrido nos movimentos que pulsam com o corpo,
Corpo que tem um erro,
Assim como várias vezes eu temi.
Um olhar ao redor, e o vazio do espaço, se torna seu mundo,
Seu vazio de produção de dizeres guardados na profundidade do ser,
A bailarina vive em um minuto, uma vida inteira de sensações,
A pupila que dilata no contato com o outro, pode ser um céu de luzes jamais vistas.
Me apaixonarei pela bailarina, que não sabe seu destino, e segue mesmo assim,
Não a pedirei que me ensine a dançar, porque sei que dança não se ensina.
Ela me mostrará seus passos, os rasos,, que quase não tocam ao chão, e os profundos, que experimentam toda a tensão do solo.
Ela somente me mostrará seus passos, que nada tem a ver com os meus.
Então eu tentarei executar os meus,
A bailarina pouco se importará em me deixar,
Porque sabe que sei fazer monólogos,
E sou dada a solilóquios.
Me apaixonarei por uma bailarina, que nunca antes vi,
E a paixão é assim, um sentimento "infectante que perdura por um momento",
Esse sentimento que constantemente teima em nos infectar.
Em um momento final, a dança terminará,
A respiração pausada, volta ao lugar, mas nunca da mesma forma.
Pode  conter agora,, um ar de aprendizado.
A bailarina e eu flutuamos, por nunca termos sabido dançar,
Porque a dança, era apenas o executar de breves sonhos.
Me apaixonarei por uma bailarina, disse o sonho, encoberto de névoa.
E voltei a dormir,



O silêncio diz muito





Agradeço pela minha insegurança ao falar,
Pela minha timidez totalmente tomada de consciência de si mesma,
Agradeço pelo meu olhar aguçado para o outro, e olhar que aprendo a ter para mim,
Me entristeço nos momentos em que tento jorrar palavras como todo mundo, e então pareço não saber quem sou. E de fato não sabemos quem somos, em momento algum, e refletimos menos nisso no momento em que falamos. Me odeio nos momentos em que tento rebater a fala do outro por pura aparência, pois não é isso que busco.
Sou grata ao silêncio, e grata á minha melancolia que poucos, ou ninguém entende.
Eu busco entendê-la. O meu silêncio pode ser uma trava e um muro profundo, mas agora que tento conhecê-lo mais, percebo que o silêncio diz muito. O meu, e o dos outros.
Agora quero menos ainda, jorrar palavras. Quero menos ainda, ter náuseas.

sábado, 25 de julho de 2015

Debussy, meu ponto de equilíbrio


Escrevo para me livrar de mim, e poder descansar.



"Eu escrevo, e assim me livro de mim e  posso então descansar."

-Clarice Lispector

Toda mulher é linda.

Negra crespa,
Linda.
Batuque, candomblé, axé,
Linda
Gordinha, dobras, curvas e sorrisos,
Ela é Linda,
Índia, pintura no corpo,
Tradição e ritual,
Linda,
Ela não se pinta,
Não quer "fazer " unha,
Nem sonbrancelha,
Linda.
Ela gosta de se pintar,
Linda,
Ela é branca, amarela,
Linda,
Ela é cacheada, lisa,
Linda.
Ela é diversa,
Linda.
Ela é mulher,
Ela tem sua crença,
Linda.
Elas são tantas,
E todas somos lindas,
Lésbicas, bissexuais, trans, heteros,
Lindas,
E vamos constantemente,
Nos conhecendo e respeitando,
Tentando sorrir para todas nós,
Porque todas somos lindas.
É muito dificil tirar,
Tudo que nos contaram,
Desde pequenas,
Nosso sorriso foi ficando triste,
Nossa vida, pequenina,
Sem brilho nenhum,
Porque a gente briga,
Mas tem tanta gente que luta,
E já venceu essas barreiras,
E é algo lindo de acontecer,
Resgatemos esse brilho também.
-Flávia Nascimento

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Recarregue o coração



Não fique sem vida!!!
Recarregue logo seu coração!


Deixe estar

Acordou,
Os olhos ofuscados pela luz natural,
Nenhum pensamento,
Ainda,
Até que o consciente enxerga,
A realidade e o lugar.
Aqueles cinco minutos,
Sentada na cama sem saber o que fazer.
Elevados a um nível mais alto.
Mais longe do que pudesse imaginar.
Merr..
Mer...da!
Você grita, a voz quase não sai.
VIDA,
E agora?
VIDA
respira...
Conta os segundos,
Mas não surgirá um pássaro azul,
Ou de qualquer outra cor,
Que lhe retire dali.
Você se veste de palavras,
Que não saem,
E toma pra si outras preocupações.
Elas DESABAM!
ouvi o barulho.
Você está bem?
Nada é sua culpa.
Deixe estar...
Ou numa forma beatleniana.
Let it be.
Isso foi ridículo, eu sei,
Mas deixe estar.
Os olhos se apertam na esperança do sono.
Nada, tente,
Nada,
O trabalho, vaza,
As ideias escorrem.
Não as deixe escapar.
A vida?
Um caleidoscópio constante em você.
Vejo as multiplas faces
Mas as cores...
Sumiram.
Se pinte, com tinta nova,
Essa velha tinta,
esparramada nos potes da casa,
Não combinam com você.
Vai...
Que eu sei que é tudo assim mesmo.
Vai, porque ja tem muito.
E não lhe falta perna,
A prosseguir
Não vou finalizar com ponto,
Pois do ponto em que está
É necessário sair
-Flávia Nascimento

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Nossa vontade constante de anulação do eu. Ontem, hoje e sempre. Então a autocrítica se faz presente




Porque essa raiva do que éramos antes? Porque sempre esse medo? Porque a raiva do passado? Parece que estamos sempre a julgar a nossa suposta evolução do futuro como superior. As pessoas, os amores, o modo de vida, o antigo modo de pensar. Fomos todos eles. Agora não somos melhores. Temos sempre de voltar nossos olhos pra esse processo.
É um processo interminável, e aliás essa vida, é só uma passagem, só um pequeno salto em que tentaremos praticar nosso bem, nosso potencial de caridade, executar mais os sorrisos acolhedores que os gritos arrogantes.
A gente tem de ser capaz de sorrir. Pra quem for. sorriso acolhe.
E o ser humano acolhido, acolhe os outros também.
Esse processo, não sei o que sou nele, o que serei, sei o que fui, e estou atenta a essa construção do agora.
Às vezes a gente se cansa, de tudo isso, deixa de sorrir, nada parece fazer sentido realmente,
Esse construir constante, e reconstruir, e desconstruir algumas coisas, para sobrarem as boas. Parece cansativo, parece não valer á pena, Mas o que vale á pena afinal?
Nesse caminhar, parece que se espiritualizar , olhando no outro o melhor do mundo, parece fazer sentido no processo de aprendizagem. Mas nem sempre conseguimos. A espiritualidade ( o que nada tem a ver com religiões), precisa de um amadurecimento pessoal que estamos sempre a construir.
A pergunta que temos de nos fazer é: quem estou sendo nesse processo todo?
Pode ser que quando se faça essa pergunta, já se esteja cansado demais, de uma vida de julgamentos e pré-noções. Pode ser que os joelhos ja estejam a se partir, e a boca já não se abra para o debate, e a mente já não se atente á relevância. Daí a importância da autocrítica.
Estou a conhecer esta, recentemente. Ela me tem feito sorrir. Autocrítica nos faz sorrir, porque somos nós, atentos em nós mesmos, em sensibilidade e alma. E eu vou escrevendo clichês, até que a autocrítica me dê algo melhor.



segunda-feira, 6 de julho de 2015

Pensando com Foucault




-Como?! Você pensa que eu teria tanta dificuldade e tanto prazer em escrever, que eu me teria obstinado nisso, cabeça baixa, se não preparasse-com as mãos um pouco febris-o labirinto onde me aventurar, deslocar meu propósito, abrir-lhe  subterrâneos, enterrá-lo longe dele mesmo, encontrar-lhe desvios que resumem e deformam seu percurso, onde me perder e aparecer, finalmente, diante de olhos que eu não terei mais que encontrar? Vários, como eu sem dúvida, escrevem para não ter mais um rosto. Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ele rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever.



-Michel Foucault, Arqueologia do Saber

domingo, 5 de julho de 2015

O dia em que me encontrei com a existência




E então me veio a existência
Assim mesmo, sedenta, olhos brilhantes,
Questionadora,
O que queres da vida afinal? 
Os sonhos não cabem aqui.
Os sonhos não cabem, não servem,
Não vestem seu tamanho.
Não lhe calçam bem.
Os sonhos precisam ser doados minha querida.
E eu ali, tapando bem os ouvidos, 
Queria cair no sono, nos sonhos,
Entrar com a mente nos esquecimentos eternos,
Queria sonhar com a arquitetura que tanto sonhara,
A arte, as cores, a vida dos poréns.
Mas assim que os olhos se fechavam, a deusa existência,
(Que de fato existia!) estava ali na minha frente,
Pronta a discutir a relação.
Pronta a entrar em debate.
Mas eu já sem reação, corpo mole,
Fingi que dormia, fingi que estava doente,
Assim mesmo, feito criança,
Falei da minha febre pelas coisas imediatas,
Eu não conseguia trabalhar bem.
Falei do meu signo.
Será que meu ascendente é mais forte?
Diga-me existência!!!
Falta-me a comunicação! falta-me!
Mas a deusa já não me ouvia,
Ela vertia lágrimas.
(imagine só!) 
-Veja só o que fizeste comigo!!!
eu era tão linda, tão jovem!
acabaste com o meu existir!
Nesse momento, campo de flores se desfez,
As luzes da cidade se acenderam.
E os vizinhos reclamaram,
de minha discussão ás três da madrugada,
com a existência.
 Ela saiu correndo, deixou todas as contas a pagar.
As contas das ações impensadas,
Dos sentimentos não ditos.
Da carreira procastinada.
O que restou foi seu vestido,
Vermelho, 
brega e clichê. Ateei  fogo,
Dancei tango,
E fui dormir.
Foi o meu sono mais leve.

Ouvindo os ecos




É preciso ouvir, os ecos dentro do ser. 
Mesmo que pequeninos, nossos gritos lutam para se libertarem, saírem da teia complicada, forjada por nossas mãos durante os anos.
A autocrítica, deve ser feita com a maior das paciências. 
Deve-se observar as cores, a respiração, os anseios. O vapor que sai das narinas. O vapor que sai da boca, e das palavras. O teor das palavras. 
Deve-se observar também os signos. Os ares que se almeja. A montanha que se sobre, o sermão que o peito prega á si mesmo.  
É preciso desconhecer o que se conhece, conhecendo-se de novo.  Isso significará tirar os pedágios de si. Aqueles que custam na alma , e pesam no corpo.  Porque a passagem e a transgressão de si mesmo têm de ser livres. 
Eco é esse conhecer sem regras, livremente, informar, não ligar para a poeira das velhas páginas, desempoeirar os livros guardados e redescobrir pequenos e grandes tesouros. 
Eco é suspiro, toque, experiência, ouvir, assobio, grito, arrepio, passar o medo, questioná-lo e entendê-lo. Porque afinal, os medos são donos dos maiores ecos escondidos.

 Eco é transpiração constante, momento sadio. Eco é tão bom, que deve ter gosto de vinho. 
De chá geladinho, Chá mate com limão.
Ninguém descobre só de olhar quem presta atenção nos seus ecos. Pode ser que tenha um brilho diferente no olhar. A tal pessoa. 
E quando a gente não tem assim, muita escrita, nem muita palavra, os ecos estão todos em combustão,
Assim mesmo, dentro da gente, saem em forma de emoção. Que a gente mal sente sair.
Mas só que quem presta atenção nessas coisas, deve de ser sensível.
Daquelas pessoas com quem se cruza na rua, se esbarra,e o que há é uma reciprocidade de sorrisos.
É, quem presta atenção nos seus ecos, há de ser assim mesmo, piegas.
Quem ecoa, é eternamente piegas. Quem ecoa vive olhando o céu, as árvores, os pássaros.
Quem ecoa não sabe lidar muito bem com essas distrações, essas atrações naturais.



" A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou                                                              
        fazer atualizar o melhor de uma pessoa,
        Que livro melhor que o livro da humanidade?"
                 -Mahatma Gandhi