Me acompanho.
Andando, virando esquinas que gosto e desgosto,
Paro e olho. O céu parece agora com cinzas, um azul quase
cinza e uma seriedade.
O tempo deseja me convencer que é cruel.
E que me tornarei....
cinzas.
Ando mais um pouco, e dialogo com a luz, com o ponto de
ônibus, e com a espera.
A espera me cruza, a toda segundo. Eu tento ser caminho, e
ela passa por mim.
Mas ela não me acompanha.
me acompanho então.
São prédios e milhões de prédios,
Luzes, apartamentos, pessoas e melancolia.
Cães. A verdade nos olhos. Eles nos acompanham.
Gente... é tudo solista.
Não há jeito nem meio termo.
Não há sorriso apaixonante o suficiente,
E gente se esvai.
Procura outro. Busca infinita.
Infinito, a gente pensa no infinito logo depois que nasce, ele
é todo nosso.
E a gente sorri. Com poucos dentes, mas não há importância.
Me acompanho, não perdendo de mim a criança.
Talvez não seja escolha, nem predestinação.
Lá longe veio o vento, espiritualidade é preciso, então o
sinto.
Sinto muito, e vou embora.
Mas o vento vira esquinas e corre praças, e vem no ser.
Sentimento. Perfume de flores, e afetação.
Alma frágil,
Tento o estoicismo que falha.
Mas ainda me acompanho.
Respiro o ar que posso, pisando em pedras.
Queria lavar os pés na água pura, e puxar um ar suficiente
para séculos.
Queria eu presenciar todos os sorrisos...
Sei que não é possível.
Me veio aquele dom horrível da seriedade, e até os sorrisos
perdi.
A arte da pétala fria nos galhos de ipê, tocando o vidro
embaçado de vapor do prédio...
Deixei de olhar. Desviei do caminho.
Alma de gente que não sei por onde anda!
Peço que volte, e estampe em mim o sentimento, mas não a
afetação.
Me acompanho.
Sei que ainda procuro minha alma caída em um banco de praça
num domingo qualquer.
Minha alma é clichê demais pra que eu não saiba onde esteja.
Me acompanho, ainda
sem o mesmo ar de antes.
Com peito inquietante, e o coração cheio de taquicardia de
afetação.
Coração Poetizante.
Logo mais, nos últimos versos, saio do transe.
E me acompanho.
