domingo, 16 de agosto de 2015

Piscina Azul


Piscina Azul
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A flor caída no chão. Não se tratava de emoção alguma. Eram memórias, relembranças, que voltam a todo instante, em um vai e vem infernal. Vai e vem...
O dia ia, o vento vinha.
De uma direção contrária ao seu gosto. A moça com o rosto em meio a um desgosto visível, mesmo a vários metros de distância. A flor cheirava mais a cinzas, a mil cigarros fumados em um dia só, por mil fumantes, que fumam um por dia.
O cheiro de chuva misturado ao cheiro de cinzas, só poderia ter como resultado uma nostalgia cortante. Assim como as palavras gritantes, da poesia que lia.  Algumas frases lidas com os olhos, outras recitadas em voz alta, talvez por terem mais sentido, talvez menos. Mas era sempre menos, naquela vida. Os dias eram menos. Assim ela pedia, porque os dias que eram mais, e maiores, e cheios de emoções, tinham que acontecer esporadicamente. Para não se acostumar a estar sempre acompanhada.  Na beirada da piscina, colocou seus pés. Pés gelados, como sempre. Como as mãos. Balançava para lá e para cá, a fim de consolá-los, e a si mesma. A ansiedade em forma de gente. A chuva passara, e como sempre ficava o cheiro. Constante, e cheio de lembranças que iam e voltavam á mente, cheias de novos detalhes. O vestido se cortou entre os ramos das várias plantas, medicinais florais, planta. Tudo ali cheirava a planta, e era só sentir.  O cabelo vermelho era detalhe em meio ao verde. Voava um pouco com o vento e parecia se misturar ao sentimento de lembrança, ajudando a rememorar. O céu rapidinho juntou nuvens, carregadas, cinzas, e fortes, que não custaram a despejar água. Naquele instante, água lavava alma, riso levava ao choro, e o céu confundia-se com água.
      A piscina virou céu, com nuvens refletidas no azul. Tudo em sua vida, tornava-se uma piscina azul, sem causa, nem solução. Mergulhar era solução? E não tardou a fazer isso. Sem deixar de observar os pássaros, e pensar, se ela não  era mesmo um.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Noite


Nem todo abraço é abrigo,
Nem todo abrigo é preciso,
Nem toda dor é de natureza,
Nem toda dor se naturaliza em ser.
Ontem, a noite era vazia, mas a dor não chegava a se naturalizar em mim.
Ontem eu te vi.
Não sei quem é, não sei de onde vem,
É estranho, essa identificação maior com o desconhecido.
Ao ir embora, a noite é acolhedora.
A noite sempre acolhe aqueles que vão embora.
Você ia pela calçada, com um ar de desentendimento.
Parecendo a mim.
E então, nos encontramos, em olhar,
Os olhos se demoraram, naquele encontro, ou desencontro, de desconhecidos que se demoram.
Você continuou pela calçada, onde na noite escura de ontem,
O efeito da luz vermelha dos faróis dos carros, batendo em seu corpo esguio, parecia dar efeito poético, àquela rua sem vida.
Ruas com prédios, sempre necessitam assim, de pequenos efeitos poéticos, antinaturais.
Tendem a deixar a arquitetura trabalhada, com algum outro ar.
Diferente aos olhos de quem realmente olha.
Quem para, e olha.
Olha, ontem foi mais uma noite de perca de sentidos,
A não ser por aquele estranho ponto de identificação entre estranhos.
O desconhecido que foi, parecendo terminando uma rotina descompassada.
E quando cheguei, em casa, ouvindo as notas de Debussy,
Tudo fez sentido.
Ontem foi mais uma noite de desconhecer a mim mesma, e logo após reconhecer.
Ontem foi mais uma noite longa,
De mais músicas clássicas.