Nem todo
abraço é abrigo,
Nem todo
abrigo é preciso,
Nem toda dor
é de natureza,
Nem toda dor
se naturaliza em ser.
Ontem, a
noite era vazia, mas a dor não chegava a se naturalizar em mim.
Ontem eu te
vi.
Não sei quem
é, não sei de onde vem,
É estranho,
essa identificação maior com o desconhecido.
Ao ir
embora, a noite é acolhedora.
A noite
sempre acolhe aqueles que vão embora.
Você ia pela
calçada, com um ar de desentendimento.
Parecendo a
mim.
E então, nos
encontramos, em olhar,
Os olhos se
demoraram, naquele encontro, ou desencontro, de desconhecidos que se demoram.
Você
continuou pela calçada, onde na noite escura de ontem,
O efeito da
luz vermelha dos faróis dos carros, batendo em seu corpo esguio, parecia dar
efeito poético, àquela rua sem vida.
Ruas com
prédios, sempre necessitam assim, de pequenos efeitos poéticos, antinaturais.
Tendem a
deixar a arquitetura trabalhada, com algum outro ar.
Diferente
aos olhos de quem realmente olha.
Quem para, e
olha.
Olha, ontem
foi mais uma noite de perca de sentidos,
A não ser
por aquele estranho ponto de identificação entre estranhos.
O
desconhecido que foi, parecendo terminando uma rotina descompassada.
E quando
cheguei, em casa, ouvindo as notas de Debussy,
Tudo fez
sentido.
Ontem foi
mais uma noite de desconhecer a mim mesma, e logo após reconhecer.
Ontem foi
mais uma noite longa,
De mais
músicas clássicas.

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