quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Noite


Nem todo abraço é abrigo,
Nem todo abrigo é preciso,
Nem toda dor é de natureza,
Nem toda dor se naturaliza em ser.
Ontem, a noite era vazia, mas a dor não chegava a se naturalizar em mim.
Ontem eu te vi.
Não sei quem é, não sei de onde vem,
É estranho, essa identificação maior com o desconhecido.
Ao ir embora, a noite é acolhedora.
A noite sempre acolhe aqueles que vão embora.
Você ia pela calçada, com um ar de desentendimento.
Parecendo a mim.
E então, nos encontramos, em olhar,
Os olhos se demoraram, naquele encontro, ou desencontro, de desconhecidos que se demoram.
Você continuou pela calçada, onde na noite escura de ontem,
O efeito da luz vermelha dos faróis dos carros, batendo em seu corpo esguio, parecia dar efeito poético, àquela rua sem vida.
Ruas com prédios, sempre necessitam assim, de pequenos efeitos poéticos, antinaturais.
Tendem a deixar a arquitetura trabalhada, com algum outro ar.
Diferente aos olhos de quem realmente olha.
Quem para, e olha.
Olha, ontem foi mais uma noite de perca de sentidos,
A não ser por aquele estranho ponto de identificação entre estranhos.
O desconhecido que foi, parecendo terminando uma rotina descompassada.
E quando cheguei, em casa, ouvindo as notas de Debussy,
Tudo fez sentido.
Ontem foi mais uma noite de desconhecer a mim mesma, e logo após reconhecer.
Ontem foi mais uma noite longa,
De mais músicas clássicas.







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